Os quatro anos de preparação para o vestibular foram apenas isso: preparação para uma prova. É verdade que até a lista sair, eu nunca tinha me sentido tão pronta para ir para a Universidade. Mas assim que os dias passam nessa nova rotina, eu sinto justamente o oposto: eu não estou pronta para isso.
Eu tenho me sentindo num estado de alerta constante ou em um estado de dormência irreversível. Há horas que me sinto lavada por adrenalina pura, como se eu precisasse correr pela minha vida, principalmente quando eu estou em casa. Ontem mesmo, ao ouvir meu pai tossir no banheiro eu fui LAVADA por um instinto de luta e fuga liberado pela adrenalina, e causado por um medo irracional de: meu pai está morrendo. É um problema que eu carrego comigo a muito tempo, desde a morte da minha irmã. Eu tenho um medo gigantesco da morte, mas não a minha, mas principalmente a dos meus pais. E desde que eu fui morar fora, isso piorou muito (afinal, eu estava convivendo bem com esse meu medo até então).
Eu acho que, inconscientemente, sair de casa significou crescer, tempo transcorrido, e consequentemente menos tempo com meus pais. Até as irritações cotidianas que me faziam querer tanto sair de casa foram sufocadas por esse medo irracional da perda. Perda essa inevitável. Um dia vai acontecer. E eu vou lidar com isso, nada de luto eterno, do glamour da depressão. Vai acontecer e eu vou ficar bem, e a vida vai continuar, porque ela precisa continuar. E seria uma sacanagem muito grande começar esses ataques de pânico agora, uma sacanagem gigantesca com os meus pais principalmente. E quando acontecer, eu não decepcionarei meus pais, não vou deixar ser congelada pela tristeza.
Mais uma luta diária.
Enfim, a mudança de vida também trouxe outro medo irracional: da mudança no meu namoro. Como se a mudança da minha rotina pudesse provocar algum tipo de dano irreparável na minha relação com o Ítallo.
Definitivamente, eu tenho problemas com mudanças, porque eu não tenho perspectiva, controle, eu simplesmente NÃO SEI. E isso me deixa extremamente ansiosa, medrosa e descaracterizada, como qualquer medo faz com qualquer indivíduo.
A gente brigou domingo passado e um alerta começou a tocar: "JÁ ESTÁ MUDANDO" e outra vez eu fui paralisada por medo, que não me deixou estudar no domingo a noite, que por sua vez teve consequências sérias na prova de Biologia Celular da sexta.
Eu clamo por adaptação. Não vejo a hora de me ajustar, de me encontrar novamente. Quero entender as dinâmicas da minha nova vida, como posso controlá-la e viver em paz.
Eu imagino que ler esse tipo de coisa deve causar estranheza em muita gente, principalmente àquelas que defendem viver a vida ao sabor do vento. Racionalmente eu compreendo que é impossível controlar cada aspecto da minha própria vida, e apesar da minha aparente aversão à mudanças, eu não só precisava, como desejava com cada pedacinho do meu ser, que minha vida mudasse. Fosse entrando na faculdade de medicina, ou qualquer outra coisa. Eu só precisava de novos ventos.
Mas emocionalmente eu preciso dessa sensação de controle, que apesar de colocar dessa forma, a verdade é que eu preciso apenas me adaptar. No início, eu senti como se apenas observasse meu corpo enquanto as coisas aconteciam, enquanto ia para as aulas, entrava e saia da FMUSP, observava de longe, e não sentia nada. Agora, que aparentemente eu tomei consciência de que a vida mudou de fato, eu me sinto congelada pelo medo de... tudo basicamente.
Eu tive poucas oportunidades de conversar com a Aparecida sobre isso, mas quando mencionei isso, ela me deu uma resposta certeira: eu queria muito passar, mas eu nunca achei que eu realmente iria passar. Agora que eu me encontro aqui, na faculdade, morando sozinha, me sinto como se tivesse caído de paraquedas, sem qualquer preparação para estar onde eu estou.
Tanto do lado pessoal, afinal esse medo de perda foi causado por ter que sair da casa, e o meu medo de perder o Ítallo envolve a nova distância e dificuldade de comunicação. Mas há também outros medos, esses que envolvem a faculdade em si: medo das provas, dos trabalhos... resumindo, medo de não ser capacitada o suficiente, de não dar conta do que vai ser (e já está sendo) exigido de mim.
O que me acalma é saber que o medo do desconhecido é inerente à qualquer ser humano. Não sou a primeira a sentir isso, e não serei a ultima. Preciso recolher cada retalho de aprendizagem e maturidade emocional que o meu medo espalhou, juntar tudo numa grande colcha de aprendizado, pois é a racionalidade e o crescimento emocional que eu sei que tive pode me proteger dos medos que tenho sentido.
E ter paciência, pois eu preciso, como dito anteriormente, me acostumar, me ajustar, e me encontrar nessa nova rotina.
Vai dar tudo certo.
Slow down, and I sail on the riverSlow down, and I walk to the hill