terça-feira, 15 de abril de 2014

005 - Sobre Medo

1 - Medo.

Os quatro anos de preparação para o vestibular foram apenas isso: preparação para uma prova. É verdade que até a lista sair, eu nunca tinha me sentido tão pronta para ir para a Universidade. Mas assim que os dias passam nessa nova rotina, eu sinto justamente o oposto: eu não estou pronta para isso.

Eu tenho me sentindo num estado de alerta constante ou em um estado de dormência irreversível. Há horas que me sinto lavada por adrenalina pura, como se eu precisasse correr pela minha vida, principalmente quando eu estou em casa. Ontem mesmo, ao ouvir meu pai tossir no banheiro eu fui LAVADA por um instinto de luta e fuga liberado pela adrenalina, e causado por um medo irracional de: meu pai está morrendo. É um problema que eu carrego comigo a muito tempo, desde a morte da minha irmã. Eu tenho um medo gigantesco da morte, mas não a minha, mas principalmente a dos meus pais. E desde que eu fui morar fora, isso piorou muito (afinal, eu estava convivendo bem com esse meu medo até então).

Eu acho que, inconscientemente, sair de casa significou crescer, tempo transcorrido, e consequentemente menos tempo com meus pais. Até as irritações cotidianas que me faziam querer tanto sair de casa foram sufocadas por esse medo irracional da perda. Perda essa inevitável. Um dia vai acontecer. E eu vou lidar com isso, nada de luto eterno, do glamour da depressão. Vai acontecer e eu vou ficar bem, e a vida vai continuar, porque ela precisa continuar. E seria uma sacanagem muito grande começar esses ataques de pânico agora, uma sacanagem gigantesca com os meus pais principalmente. E quando acontecer, eu não decepcionarei meus pais, não vou deixar ser congelada pela tristeza.

Mais uma luta diária.

Enfim, a mudança de vida também trouxe outro medo irracional: da mudança no meu namoro. Como se a mudança da minha rotina pudesse provocar algum tipo de dano irreparável na minha relação com o Ítallo.
Definitivamente, eu tenho problemas com mudanças, porque eu não tenho perspectiva, controle, eu simplesmente NÃO SEI. E isso me deixa extremamente ansiosa, medrosa e descaracterizada, como qualquer medo faz com qualquer indivíduo.

A gente brigou domingo passado e um alerta começou a tocar: "JÁ ESTÁ MUDANDO" e outra vez eu fui paralisada por medo, que não me deixou estudar no domingo a noite, que por sua vez teve consequências sérias na prova de Biologia Celular da sexta.

Eu clamo por adaptação. Não vejo a hora de me ajustar, de me encontrar novamente. Quero entender as dinâmicas da minha nova vida, como posso controlá-la e viver em paz.

Eu imagino que ler esse tipo de coisa deve causar estranheza em muita gente, principalmente àquelas que defendem viver a vida ao sabor do vento. Racionalmente eu compreendo que é impossível controlar cada aspecto da minha própria vida, e apesar da minha aparente aversão à mudanças, eu não só precisava, como desejava com cada pedacinho do meu ser, que minha vida mudasse. Fosse entrando na faculdade de medicina, ou qualquer outra coisa. Eu só precisava de novos ventos.

Mas emocionalmente eu preciso dessa sensação de controle, que apesar de colocar dessa forma, a verdade é que eu preciso apenas me adaptar. No início, eu senti como se apenas observasse meu corpo enquanto as coisas aconteciam, enquanto ia para as aulas, entrava e saia da FMUSP, observava de longe, e não sentia nada. Agora, que aparentemente eu tomei consciência de que a vida mudou de fato, eu me sinto congelada pelo medo de... tudo basicamente.

Eu tive poucas oportunidades de conversar com a Aparecida sobre isso, mas quando mencionei isso, ela me deu uma resposta certeira: eu queria muito passar, mas eu nunca achei que eu realmente iria passar. Agora que eu me encontro aqui, na faculdade, morando sozinha, me sinto como se tivesse caído de paraquedas, sem qualquer preparação para estar onde eu estou.

Tanto do lado pessoal, afinal esse medo de perda foi causado por ter que sair da casa, e o meu medo de perder o Ítallo envolve a nova distância e dificuldade de comunicação. Mas há também outros medos, esses que envolvem a faculdade em si: medo das provas, dos trabalhos... resumindo, medo de não ser capacitada o suficiente, de não dar conta do que vai ser (e já está sendo) exigido de mim.

O que me acalma é saber que o medo do desconhecido é inerente à qualquer ser humano. Não sou a primeira a sentir isso, e não serei a ultima. Preciso recolher cada retalho de aprendizagem e maturidade emocional que o meu medo espalhou, juntar tudo numa grande colcha de aprendizado, pois é a racionalidade e o crescimento emocional que eu sei que tive pode me proteger dos medos que tenho sentido.

E ter paciência, pois eu preciso, como dito anteriormente, me acostumar, me ajustar, e me encontrar nessa nova rotina.

Vai dar tudo certo.

Slow down, and I sail on the river
Slow down, and I walk to the hill

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

004 - Olivia

Eu sei que você ficou chateada comigo, e eu entendo que eu não tenho como controlar isso, contudo eu queria tentar mais uma vez: perdão.
Eu não deixei de te avisar na hora por falta de consideração, ou porque você não é importante, e eu definitivamente não sei o que passou pela sua cabeça e te deixou chateada, mas eu não tive intenção alguma de deixar de te avisar.

O que aconteceu sexta foi o seguinte: eu fiquei no meu quarto, esperando o resultado sair, e assim que eu vi meu nome na lista, comecei a gritar e chorar. A partir daí foi uma confusão de eventos. Enquanto eu tirei o print screen, e postei no facebook, meus pais conseguiram brigar. Sim, brigar ao ponto da minha mãe sair chorando. Depois disso, chorando ela foi limpar a caixa de gordura, porque... eu não sei porque sinceramente. Ela passou mal, porque misturou ácido muriático e cândida, ficou com dificuldade pra respirar e talz. Eu fiquei lá com ela, conversei com meus pais, meu pai chorou... foi horrível. Foi facilmente um dos dias mais traumáticos da minha vida hahaha. Eu não voltei pro facebook, eu só dava umas olhadinhas, curtia quem tinha comentado alguma coisa, e respondi quem me mandou mensagem: a Grazi e a Lu. Eu só consegui avisar e falar com o Ítallo mais tarde.
A Kátia me ligou e me chamou pra ir por Etapa, e eu acho que era uma 17h, não me lembro bem. Eu fui e me arrependo um monte disso hahaha. Não por causa da Kátia nem nada, mas sei lá. Não foi muito agradável. Eu fui até a atlética da medicina, e de lá sai correndo pra casa da Vic, que a gente já tinha combinado mais de mês de dormir lá.

Foi lá da Vic que te mandei a mensagem, porque achei estranho que você não tinha curtido nada, nem me mandado nada. E o resto é resto.

Você pode não acreditar, pode continuar brava, pode nunca mais falar comigo se quiser, de verdade. Mas eu juro que não foi por querer, sexta feira foi um dia extremamente estranho e traumático pra mim, e eu não viveria ele nunca mais.

Eu resolvi não te encher mais o saco, porque eu não sei... acho que ficar falando com você como se nada tivesse acontecido é esquisito e eu sinto que você não tá bem comigo. O que me deixa mal, porque eu fico pensando nisso direto e me sinto horrível. Mas enfim, quando você estiver bem, ter esquecido, me perdoado, sei lá, eu estarei aqui!

Eu não sou muito boa em expressar sentimento pessoalmente, eu morro de vergonha e tenho medo de falar besteira - o que, no fim das contas, é o que eu mais faço - e desculpa se eu não deixo claro o quanto você é minha amiga, e o quanto eu gosto de você. Eu acho que as vezes parece que eu sou meio insensível ou sei lá, mas não é verdade. Eu sou só estranha, e não consigo falar as coisas direito.

Eu juro que é a última vez que eu encho seu saco em relação a isso, de verdade. Desculpe mais uma vez.

003 - Opinião

"O que me deixa puta nessas discussões é que eu sinto que tô estudando para nada. 4 anos estudando isso, quase, e todos tem uma opinião como se fosse SÓ questão de opinião e dane-se o resto haha."
Sim, essa é mais uma da série: sociólogos de facebook.

Não serei hipócrita: eu tenho os meus "achismos", e de vez em quando exponho eles. Eu tenho opinião sobre o sistema de cotas racial, sobre o bolsa família, enfim, sobre uma série de coisas. Ao mesmo tempo, há uma série de outras questões que eu não me arrisco, por falta de leitura/informação: médicos cubanos, e os rolezinhos são alguns desses assuntos por exemplo. E mesmo esses outros em que eu tenho algum tipo de opinião, não passa disso: opinião.

O que muita gente não entende é que opinião não é, necessariamente, sinônimo de sabedoria, mas está mais próximo de impressão, de um julgamento pessoal, segundo valores morais (muitas vezes questionáveis), e que na maioria das vezes não carrega pesquisa científica nem raciocínio lógico.

Sair por aí bradando, por exemplo, que o Bolsa Família cria "vagabundos" não é nenhuma teoria social. Isso é um exemplo claro de opinião, pois através dos seus valores morais, você chegou a essa conclusão, que vamos ser sinceros aqui, é uma falácia.

É uma falácia pois não carrega rigor lógico, racional, científico. Apenas carrega uma impressão pessoal sobre uma medida governamental. Eu poderia aceitar esse argumento a partir do momento que fosse conceituado o que é ser "vagabundo", e com base nesse conceito, uma estatística fosse elaborada, relativizando o número daqueles que, ao receberem o benefício se tornaram vagabundos, contra aqueles que... não são vagabundos.

O estudo das ciências humanas não é feito de modo "a caralha" como a sua opinião - e até a minha -. Quando um cientista político, uma estudante de políticas públicas, de maneira extremamente humilde, apresenta artigos científicos, argumentos lógicos, e todo o conhecimento adquirido durante seus estudos, não é simplesmente uma questão de opinião, é uma especialista da área que está expondo seus conhecimentos.

Sei lá sabe, só é muito triste quando uma estudante extremamente esforçada, dedicada, que é extremamente humilde como a minha amiga, sente-se inferiorizada, pois a matéria de estudo dela é reduzida a "questão de opinião".

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

002 - Raiva

Estudantes de universidades públicas, matriculados em cursos prestigiosos e com um discurso um tanto, estranho - para não dizer nenhuma palavra com maior valor pejorativo -, me deixam assim, com raiva.

O argumento é simples: "Esses estudantes que pedem para melhorar a educação e dormem na aula."
E ai vem o fella do primeiro enunciador, que dispara: "Isso quando eles vão para aula, né."

Minha interpretação deste diálogo, na qual encontrei no Facebook - a morada dos filósofos contemporâneos -, foi a seguinte: Qual a finalidade de melhorar a educação, quando nem todos os alunos se aplicam ou estão interessados em estudar? Assusta-me essa argumentação simplista, e ouso dizer quase infantil de um problema sério do país. A educação é tratada de uma forma tão básica quanto arrumar a cama: "Por que vou arrumar a cama, se a noite vou bagunçá-la outra vez?"

Ouso arriscar que em momento algum passou pela cabeça dos sociólogos de Facebook que o desinteresse nas aulas, tanto de cursos superior quanto da educação básica, reside justamente na pedagogia falha adotada por professores e escolas.
Talvez grande parte do sono que estes alunos sentem seja resultado de uma estrutura maçante, que prende os alunos em salas de aula fechadas, com livros ou apostilas que apresentem desenhos - quando muito fotos - de árvores e vegetais que eles poderiam estudar de maneira prática e visual, nos jardins das escolas.
Acredito inclusive que se houvesse valorização do ensino público, muitos dos alunos ausentes voltariam às aulas, pois estar na escola passaria a representar uma chance concreta de mudança, e não apenas uma perda de tempo, uma obrigatoriedade na qual ele necessita passar para conseguir um emprego.

É fato que mesmo havendo reformas estruturais na educação brasileira, que garantissem igualdade de ensino para pobres e ricos, negros e brancos ainda haveria alunos desinteressados, que não se aplicariam nas aulas, e que tirariam notas ruins. Isso porque a vida dos estudantes não está restrita aos muros das escolas. A vida de cada aluno é única, da mesma maneira que cada aluno apresenta características próprias.

Há alunos com problemas sérios em casa, onde sofrem abusos morais e físicos. Não acredito que apenas com uma reforma na estrutura educacional brasileira ele terá um futuro brilhante. Este problema é um exemplo entre milhares que fogem da regra difundida, da utopia perfeita de que a melhora na educação resolverá todos os problemas do Brasil.

Melhorar o país portanto não se restringe à reformas educacionais. É muito maior que isto, pois a vida em sociedade também é muito maior do que a instituição "escola". Contudo, isto não representa de maneira alguma, mais uma desculpa para não exigir melhoras na educação. Pelo contrário, reformas educacionais poderiam ser o primeiro passo para um trabalho social profundo que amenizaria desigualdades e injustiças.

Não entrarei no mérito de alunos com necessidades especiais, devido a problemas de aprendizagem ou outras doenças que dificultem seu rendimento escolar, mérito este devidamente ignorado por nossos sociólogos também, que julgam desinteresse como simples desvio de caráter.

Após escrever tudo isso, concluo de maneira surpreendente: eles estão certos. São verdadeiros campeões que tiveram a rara oportunidade nas mãos, muitos -assim como eu -, que saíram de escolar públicas ruins, mas pagaram cursinhos para poder prestar o vestibular. E todos os outros, pobres, ou abusados moral ou fisicamente, que necessitam de amparo, ou desanimados com as perspectivas de seus futuros são apenas pessoas sem caráter que não merecem um ensino melhor, de qualidade.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

001 - Paralelos

Breaking Bad já chegou ao seu fim, mas confesso que a série ainda se encontra em aberto para mim, com mais quatro ou cinco episódios à frente que devo encarar em breve. E entre um leque diversificado de assuntos polêmicos em que ela abordou, todos dignos de analises e reflexões, eu resolvi escolher um que não é aprofundado, mas sim apenas tangenciado para debutar mais um blog com nome estranho - e que fique claro que o tema químico me acompanha desde 2007, muito antes da série existir.

A relação do DEA (Drug Enforcement Administration) com os seus "suspeitos" chamou a minha atenção durante toda a série, e me fez levantar a seguinte questão: Para quem a polícia trabalha afinal? A série claramente não se foca nessa relação, porém é notória a fina ironia na qual as operações do DEA são retratadas na série, principalmente aquelas onde não há qualquer tipo de prova concreta, mas sim apenas a intuição do investigador.

Eles passam por cima de tudo, perseguem suspeitos sem qualquer tipo de amparo legal, forjam apreensões, e tentam, com todas as sua forças, adiar a chegada do advogado. Seria ótimo se essa classe não existisse, não é mesmo?! Como o próprio Hank disse à Skyler em um dos últimos episódios que assisti: "Para quê buscar um advogado afinal? Eles colocarão empecilhos, barreiras, farão de tudo para prejudicar a investigação.

O verdadeiro papel de um advogado, porém não é colocar empecilhos na investigação, ou construir barreiras para que a polícia não seja capaz de alcançar a verdade, as provas, a vitória. Os advogados garantem que a polícia não descumpra a lei na qual ela vive em servir, eles impedem que certos direitos sejam esquecidos, e que alguns parágrafos e incisos sejam apagados pelos fardados. Por fim, os advogados impedem que legislações sejam esquecidas com a finalidade de que a polícia chegue as suas conclusões finais, e o instinto investigativo seja enfim recompensado com o seguinte brado: "você está preso".

Sendo assim, me sentiria mais segura ao lado de Saul Goodman, do que cercada de agentes do DEA, pois esses agentes trabalham para si mesmos.

Ao ver estes pequenos exemplos de desrespeito aos direitos civis que Breaking Bad apresenta, comecei a pensar sobre a situação atual da polícia militar brasileira, principalmente frente aos protestos de junho e aos abusos cometidos na periferia. O que a nossa polícia militar defende? Ao lado de quem ela está?

A instituição foi criada durante a ditadura militar, e seu histórico é tão cinza quanto o céu paulista. DOI-CODI e DOPS (inicialmente criado no Estado Novo de Getúlio Vargas e posteriormente usado no regime militar) são siglas que dão arrepio na espinha para qualquer um que já leu descrições das torturas praticadas em seus porões. Em um contexto histórico na qual o mundo se dividia em ideologias, era fácil demonizar um grupo, persegui-lo segundo um ideal, torturá-lo e matá-lo para o bem da nação.

E o que há de diferente hoje?

Eu ainda me sinto em 1970, para mim não há nada de diferente. Há o pobre, provavelmente negro e hostilizado pela polícia, pelo Estado, pelo resto da população, encurralado na periferia onde ninguém o vê morrer - afinal, se uma árvore cai no meio de floresta sem que houvesse ninguém para testemunhar, como provar que ela caiu? -, a indústria da seca se sustenta no mito de que "há miséria pois há seca", e se os professores, estudantes e qualquer um que está no centro urbano se manifestar será sistematicamente calado, seu movimento será abafado, e seu rosto ridicularizado. Enquanto isso o resto da população canta "pra frente Brasil, salve a seleção".

A ditadura não existe mais, então eu ainda pergunto, e diferentemente do exemplo que citei do DEA mostrado no Breaking Bad, eu não tenho a resposta:
Para quem a polícia militar brasileira trabalha, afinal?

(texto um tantinho tendencioso e pende para um lado só, mas a gente melhora né).