segunda-feira, 4 de novembro de 2013

001 - Paralelos

Breaking Bad já chegou ao seu fim, mas confesso que a série ainda se encontra em aberto para mim, com mais quatro ou cinco episódios à frente que devo encarar em breve. E entre um leque diversificado de assuntos polêmicos em que ela abordou, todos dignos de analises e reflexões, eu resolvi escolher um que não é aprofundado, mas sim apenas tangenciado para debutar mais um blog com nome estranho - e que fique claro que o tema químico me acompanha desde 2007, muito antes da série existir.

A relação do DEA (Drug Enforcement Administration) com os seus "suspeitos" chamou a minha atenção durante toda a série, e me fez levantar a seguinte questão: Para quem a polícia trabalha afinal? A série claramente não se foca nessa relação, porém é notória a fina ironia na qual as operações do DEA são retratadas na série, principalmente aquelas onde não há qualquer tipo de prova concreta, mas sim apenas a intuição do investigador.

Eles passam por cima de tudo, perseguem suspeitos sem qualquer tipo de amparo legal, forjam apreensões, e tentam, com todas as sua forças, adiar a chegada do advogado. Seria ótimo se essa classe não existisse, não é mesmo?! Como o próprio Hank disse à Skyler em um dos últimos episódios que assisti: "Para quê buscar um advogado afinal? Eles colocarão empecilhos, barreiras, farão de tudo para prejudicar a investigação.

O verdadeiro papel de um advogado, porém não é colocar empecilhos na investigação, ou construir barreiras para que a polícia não seja capaz de alcançar a verdade, as provas, a vitória. Os advogados garantem que a polícia não descumpra a lei na qual ela vive em servir, eles impedem que certos direitos sejam esquecidos, e que alguns parágrafos e incisos sejam apagados pelos fardados. Por fim, os advogados impedem que legislações sejam esquecidas com a finalidade de que a polícia chegue as suas conclusões finais, e o instinto investigativo seja enfim recompensado com o seguinte brado: "você está preso".

Sendo assim, me sentiria mais segura ao lado de Saul Goodman, do que cercada de agentes do DEA, pois esses agentes trabalham para si mesmos.

Ao ver estes pequenos exemplos de desrespeito aos direitos civis que Breaking Bad apresenta, comecei a pensar sobre a situação atual da polícia militar brasileira, principalmente frente aos protestos de junho e aos abusos cometidos na periferia. O que a nossa polícia militar defende? Ao lado de quem ela está?

A instituição foi criada durante a ditadura militar, e seu histórico é tão cinza quanto o céu paulista. DOI-CODI e DOPS (inicialmente criado no Estado Novo de Getúlio Vargas e posteriormente usado no regime militar) são siglas que dão arrepio na espinha para qualquer um que já leu descrições das torturas praticadas em seus porões. Em um contexto histórico na qual o mundo se dividia em ideologias, era fácil demonizar um grupo, persegui-lo segundo um ideal, torturá-lo e matá-lo para o bem da nação.

E o que há de diferente hoje?

Eu ainda me sinto em 1970, para mim não há nada de diferente. Há o pobre, provavelmente negro e hostilizado pela polícia, pelo Estado, pelo resto da população, encurralado na periferia onde ninguém o vê morrer - afinal, se uma árvore cai no meio de floresta sem que houvesse ninguém para testemunhar, como provar que ela caiu? -, a indústria da seca se sustenta no mito de que "há miséria pois há seca", e se os professores, estudantes e qualquer um que está no centro urbano se manifestar será sistematicamente calado, seu movimento será abafado, e seu rosto ridicularizado. Enquanto isso o resto da população canta "pra frente Brasil, salve a seleção".

A ditadura não existe mais, então eu ainda pergunto, e diferentemente do exemplo que citei do DEA mostrado no Breaking Bad, eu não tenho a resposta:
Para quem a polícia militar brasileira trabalha, afinal?

(texto um tantinho tendencioso e pende para um lado só, mas a gente melhora né).

Nenhum comentário:

Postar um comentário