segunda-feira, 18 de novembro de 2013

002 - Raiva

Estudantes de universidades públicas, matriculados em cursos prestigiosos e com um discurso um tanto, estranho - para não dizer nenhuma palavra com maior valor pejorativo -, me deixam assim, com raiva.

O argumento é simples: "Esses estudantes que pedem para melhorar a educação e dormem na aula."
E ai vem o fella do primeiro enunciador, que dispara: "Isso quando eles vão para aula, né."

Minha interpretação deste diálogo, na qual encontrei no Facebook - a morada dos filósofos contemporâneos -, foi a seguinte: Qual a finalidade de melhorar a educação, quando nem todos os alunos se aplicam ou estão interessados em estudar? Assusta-me essa argumentação simplista, e ouso dizer quase infantil de um problema sério do país. A educação é tratada de uma forma tão básica quanto arrumar a cama: "Por que vou arrumar a cama, se a noite vou bagunçá-la outra vez?"

Ouso arriscar que em momento algum passou pela cabeça dos sociólogos de Facebook que o desinteresse nas aulas, tanto de cursos superior quanto da educação básica, reside justamente na pedagogia falha adotada por professores e escolas.
Talvez grande parte do sono que estes alunos sentem seja resultado de uma estrutura maçante, que prende os alunos em salas de aula fechadas, com livros ou apostilas que apresentem desenhos - quando muito fotos - de árvores e vegetais que eles poderiam estudar de maneira prática e visual, nos jardins das escolas.
Acredito inclusive que se houvesse valorização do ensino público, muitos dos alunos ausentes voltariam às aulas, pois estar na escola passaria a representar uma chance concreta de mudança, e não apenas uma perda de tempo, uma obrigatoriedade na qual ele necessita passar para conseguir um emprego.

É fato que mesmo havendo reformas estruturais na educação brasileira, que garantissem igualdade de ensino para pobres e ricos, negros e brancos ainda haveria alunos desinteressados, que não se aplicariam nas aulas, e que tirariam notas ruins. Isso porque a vida dos estudantes não está restrita aos muros das escolas. A vida de cada aluno é única, da mesma maneira que cada aluno apresenta características próprias.

Há alunos com problemas sérios em casa, onde sofrem abusos morais e físicos. Não acredito que apenas com uma reforma na estrutura educacional brasileira ele terá um futuro brilhante. Este problema é um exemplo entre milhares que fogem da regra difundida, da utopia perfeita de que a melhora na educação resolverá todos os problemas do Brasil.

Melhorar o país portanto não se restringe à reformas educacionais. É muito maior que isto, pois a vida em sociedade também é muito maior do que a instituição "escola". Contudo, isto não representa de maneira alguma, mais uma desculpa para não exigir melhoras na educação. Pelo contrário, reformas educacionais poderiam ser o primeiro passo para um trabalho social profundo que amenizaria desigualdades e injustiças.

Não entrarei no mérito de alunos com necessidades especiais, devido a problemas de aprendizagem ou outras doenças que dificultem seu rendimento escolar, mérito este devidamente ignorado por nossos sociólogos também, que julgam desinteresse como simples desvio de caráter.

Após escrever tudo isso, concluo de maneira surpreendente: eles estão certos. São verdadeiros campeões que tiveram a rara oportunidade nas mãos, muitos -assim como eu -, que saíram de escolar públicas ruins, mas pagaram cursinhos para poder prestar o vestibular. E todos os outros, pobres, ou abusados moral ou fisicamente, que necessitam de amparo, ou desanimados com as perspectivas de seus futuros são apenas pessoas sem caráter que não merecem um ensino melhor, de qualidade.

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