Estudantes de universidades públicas, matriculados em cursos prestigiosos e com um discurso um tanto, estranho - para não dizer nenhuma palavra com maior valor pejorativo -, me deixam assim, com raiva.
O argumento é simples: "Esses estudantes que pedem para melhorar a educação e dormem na aula."
E ai vem o fella do primeiro enunciador, que dispara: "Isso quando eles vão para aula, né."
Minha interpretação deste diálogo, na qual encontrei no Facebook - a morada dos filósofos contemporâneos -, foi a seguinte: Qual a finalidade de melhorar a educação, quando nem todos os alunos se aplicam ou estão interessados em estudar? Assusta-me essa argumentação simplista, e ouso dizer quase infantil de um problema sério do país. A educação é tratada de uma forma tão básica quanto arrumar a cama: "Por que vou arrumar a cama, se a noite vou bagunçá-la outra vez?"
Ouso arriscar que em momento algum passou pela cabeça dos sociólogos de Facebook que o desinteresse nas aulas, tanto de cursos superior quanto da educação básica, reside justamente na pedagogia falha adotada por professores e escolas.
Talvez grande parte do sono que estes alunos sentem seja resultado de uma estrutura maçante, que prende os alunos em salas de aula fechadas, com livros ou apostilas que apresentem desenhos - quando muito fotos - de árvores e vegetais que eles poderiam estudar de maneira prática e visual, nos jardins das escolas.
Acredito inclusive que se houvesse valorização do ensino público, muitos dos alunos ausentes voltariam às aulas, pois estar na escola passaria a representar uma chance concreta de mudança, e não apenas uma perda de tempo, uma obrigatoriedade na qual ele necessita passar para conseguir um emprego.
É fato que mesmo havendo reformas estruturais na educação brasileira, que garantissem igualdade de ensino para pobres e ricos, negros e brancos ainda haveria alunos desinteressados, que não se aplicariam nas aulas, e que tirariam notas ruins. Isso porque a vida dos estudantes não está restrita aos muros das escolas. A vida de cada aluno é única, da mesma maneira que cada aluno apresenta características próprias.
Há alunos com problemas sérios em casa, onde sofrem abusos morais e físicos. Não acredito que apenas com uma reforma na estrutura educacional brasileira ele terá um futuro brilhante. Este problema é um exemplo entre milhares que fogem da regra difundida, da utopia perfeita de que a melhora na educação resolverá todos os problemas do Brasil.
Melhorar o país portanto não se restringe à reformas educacionais. É muito maior que isto, pois a vida em sociedade também é muito maior do que a instituição "escola". Contudo, isto não representa de maneira alguma, mais uma desculpa para não exigir melhoras na educação. Pelo contrário, reformas educacionais poderiam ser o primeiro passo para um trabalho social profundo que amenizaria desigualdades e injustiças.
Não entrarei no mérito de alunos com necessidades especiais, devido a problemas de aprendizagem ou outras doenças que dificultem seu rendimento escolar, mérito este devidamente ignorado por nossos sociólogos também, que julgam desinteresse como simples desvio de caráter.
Após escrever tudo isso, concluo de maneira surpreendente: eles estão certos. São verdadeiros campeões que tiveram a rara oportunidade nas mãos, muitos -assim como eu -, que saíram de escolar públicas ruins, mas pagaram cursinhos para poder prestar o vestibular. E todos os outros, pobres, ou abusados moral ou fisicamente, que necessitam de amparo, ou desanimados com as perspectivas de seus futuros são apenas pessoas sem caráter que não merecem um ensino melhor, de qualidade.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
001 - Paralelos
Breaking Bad já chegou ao seu fim, mas confesso que a série ainda se encontra em aberto para mim, com mais quatro ou cinco episódios à frente que devo encarar em breve. E entre um leque diversificado de assuntos polêmicos em que ela abordou, todos dignos de analises e reflexões, eu resolvi escolher um que não é aprofundado, mas sim apenas tangenciado para debutar mais um blog com nome estranho - e que fique claro que o tema químico me acompanha desde 2007, muito antes da série existir.
A relação do DEA (Drug Enforcement Administration) com os seus "suspeitos" chamou a minha atenção durante toda a série, e me fez levantar a seguinte questão: Para quem a polícia trabalha afinal? A série claramente não se foca nessa relação, porém é notória a fina ironia na qual as operações do DEA são retratadas na série, principalmente aquelas onde não há qualquer tipo de prova concreta, mas sim apenas a intuição do investigador.
Eles passam por cima de tudo, perseguem suspeitos sem qualquer tipo de amparo legal, forjam apreensões, e tentam, com todas as sua forças, adiar a chegada do advogado. Seria ótimo se essa classe não existisse, não é mesmo?! Como o próprio Hank disse à Skyler em um dos últimos episódios que assisti: "Para quê buscar um advogado afinal? Eles colocarão empecilhos, barreiras, farão de tudo para prejudicar a investigação.
O verdadeiro papel de um advogado, porém não é colocar empecilhos na investigação, ou construir barreiras para que a polícia não seja capaz de alcançar a verdade, as provas, a vitória. Os advogados garantem que a polícia não descumpra a lei na qual ela vive em servir, eles impedem que certos direitos sejam esquecidos, e que alguns parágrafos e incisos sejam apagados pelos fardados. Por fim, os advogados impedem que legislações sejam esquecidas com a finalidade de que a polícia chegue as suas conclusões finais, e o instinto investigativo seja enfim recompensado com o seguinte brado: "você está preso".
Sendo assim, me sentiria mais segura ao lado de Saul Goodman, do que cercada de agentes do DEA, pois esses agentes trabalham para si mesmos.
Ao ver estes pequenos exemplos de desrespeito aos direitos civis que Breaking Bad apresenta, comecei a pensar sobre a situação atual da polícia militar brasileira, principalmente frente aos protestos de junho e aos abusos cometidos na periferia. O que a nossa polícia militar defende? Ao lado de quem ela está?
A instituição foi criada durante a ditadura militar, e seu histórico é tão cinza quanto o céu paulista. DOI-CODI e DOPS (inicialmente criado no Estado Novo de Getúlio Vargas e posteriormente usado no regime militar) são siglas que dão arrepio na espinha para qualquer um que já leu descrições das torturas praticadas em seus porões. Em um contexto histórico na qual o mundo se dividia em ideologias, era fácil demonizar um grupo, persegui-lo segundo um ideal, torturá-lo e matá-lo para o bem da nação.
E o que há de diferente hoje?
Eu ainda me sinto em 1970, para mim não há nada de diferente. Há o pobre, provavelmente negro e hostilizado pela polícia, pelo Estado, pelo resto da população, encurralado na periferia onde ninguém o vê morrer - afinal, se uma árvore cai no meio de floresta sem que houvesse ninguém para testemunhar, como provar que ela caiu? -, a indústria da seca se sustenta no mito de que "há miséria pois há seca", e se os professores, estudantes e qualquer um que está no centro urbano se manifestar será sistematicamente calado, seu movimento será abafado, e seu rosto ridicularizado. Enquanto isso o resto da população canta "pra frente Brasil, salve a seleção".
A ditadura não existe mais, então eu ainda pergunto, e diferentemente do exemplo que citei do DEA mostrado no Breaking Bad, eu não tenho a resposta:
Para quem a polícia militar brasileira trabalha, afinal?
(texto um tantinho tendencioso e pende para um lado só, mas a gente melhora né).
A relação do DEA (Drug Enforcement Administration) com os seus "suspeitos" chamou a minha atenção durante toda a série, e me fez levantar a seguinte questão: Para quem a polícia trabalha afinal? A série claramente não se foca nessa relação, porém é notória a fina ironia na qual as operações do DEA são retratadas na série, principalmente aquelas onde não há qualquer tipo de prova concreta, mas sim apenas a intuição do investigador.
Eles passam por cima de tudo, perseguem suspeitos sem qualquer tipo de amparo legal, forjam apreensões, e tentam, com todas as sua forças, adiar a chegada do advogado. Seria ótimo se essa classe não existisse, não é mesmo?! Como o próprio Hank disse à Skyler em um dos últimos episódios que assisti: "Para quê buscar um advogado afinal? Eles colocarão empecilhos, barreiras, farão de tudo para prejudicar a investigação.
O verdadeiro papel de um advogado, porém não é colocar empecilhos na investigação, ou construir barreiras para que a polícia não seja capaz de alcançar a verdade, as provas, a vitória. Os advogados garantem que a polícia não descumpra a lei na qual ela vive em servir, eles impedem que certos direitos sejam esquecidos, e que alguns parágrafos e incisos sejam apagados pelos fardados. Por fim, os advogados impedem que legislações sejam esquecidas com a finalidade de que a polícia chegue as suas conclusões finais, e o instinto investigativo seja enfim recompensado com o seguinte brado: "você está preso".
Sendo assim, me sentiria mais segura ao lado de Saul Goodman, do que cercada de agentes do DEA, pois esses agentes trabalham para si mesmos.
Ao ver estes pequenos exemplos de desrespeito aos direitos civis que Breaking Bad apresenta, comecei a pensar sobre a situação atual da polícia militar brasileira, principalmente frente aos protestos de junho e aos abusos cometidos na periferia. O que a nossa polícia militar defende? Ao lado de quem ela está?
A instituição foi criada durante a ditadura militar, e seu histórico é tão cinza quanto o céu paulista. DOI-CODI e DOPS (inicialmente criado no Estado Novo de Getúlio Vargas e posteriormente usado no regime militar) são siglas que dão arrepio na espinha para qualquer um que já leu descrições das torturas praticadas em seus porões. Em um contexto histórico na qual o mundo se dividia em ideologias, era fácil demonizar um grupo, persegui-lo segundo um ideal, torturá-lo e matá-lo para o bem da nação.
E o que há de diferente hoje?
Eu ainda me sinto em 1970, para mim não há nada de diferente. Há o pobre, provavelmente negro e hostilizado pela polícia, pelo Estado, pelo resto da população, encurralado na periferia onde ninguém o vê morrer - afinal, se uma árvore cai no meio de floresta sem que houvesse ninguém para testemunhar, como provar que ela caiu? -, a indústria da seca se sustenta no mito de que "há miséria pois há seca", e se os professores, estudantes e qualquer um que está no centro urbano se manifestar será sistematicamente calado, seu movimento será abafado, e seu rosto ridicularizado. Enquanto isso o resto da população canta "pra frente Brasil, salve a seleção".
A ditadura não existe mais, então eu ainda pergunto, e diferentemente do exemplo que citei do DEA mostrado no Breaking Bad, eu não tenho a resposta:
Para quem a polícia militar brasileira trabalha, afinal?
(texto um tantinho tendencioso e pende para um lado só, mas a gente melhora né).
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